AS AMIGAS E O ESPELHO

O mês de dezembro novamente aponta na curva da estrada enquanto Vera se espreguiça em movimento habitual, voltada para o novo dia de trabalho, o que lhe dá prazer inegável, além da certeza de seu pertencimento à grande massa produtiva da sociedade.

Gesto comum este, necessário para impulsionar o corpo e despertar a mente. Em seguida vem a primeira reflexão de todos os dias, semanas e meses enfileirados de modo simbólico ao longo de cada ano, sendo dezembro a data limite para as considerações de quem vive guiada pelas regras e pelas verdades irretorquíveis normalmente impostas às pessoas comuns como sendo esta a única forma de se viver uma vida decente. Por força do hábito e cacoete da disciplina, ela suspira e questiona a si mesma:

 -Qual o sentido de tudo isso? Apenas cumprir obrigações vem se tornando um tédio.

Buscar justificativas para seu próprio desânimo parece inadequado. Ainda que a maioria das pessoas recorra a esse recurso para dissipar mágoas supostamente causadas por terceiros e em cujo colo usam depositar a culpa pelas suas dificuldades. Justificativas costumam ser trapos alinhavados, remendos que mal se sustentam no pano bom.

 -Penso que somos insignificantes partículas de pó de estrelas em eterna suspensão pelo universo, carentes de significado, crentes em um livre arbítrio que, na verdade, nos permite exercer apenas a liberdade de ir e vir dentro de um determinado espaço-tempo.

Parece fato que a realidade depende do olhar crítico do observador. Quanta ironia! A nossa capacidade de observar e de ser observado ao mesmo tempo. A isto chamam vida inteligente?

Vera sabe que não é apenas uma mulher treinada para detectar e resolver problemas. Sente que nela habitam a irreverência e os ímpetos juvenis, além de vontades envelopadas, por serem atos contidos de temeridade, ousadia e de covardia também.

 A sensação que tem é a de que não há mais tempo disponível para exercitar talentos que foram abandonados por tantos anos. Estes talentos foram percebidos como rebarbas do polimento dado ao seu projeto de vida, este sim orientados para a carreira profissional.

Ela sabe que a criatividade da jovem curiosa, tendendo às artes, ao teatro, às letras poéticas, poderia tê-la conduzido igualmente à outras realizações. Alimentar seus impulsos na elaboração de um mundo melhor para todos, a custa de trabalho e dedicação, poderia também frutificar tal e qual aconteceu como resultado da opção que fez. A escolha feita resultou em muito suor e pouco prazer, com um rigor auto imposto de total dedicação ao dever.

Alcançou seus objetivos. Realizou sonhos. Concluiu projetos.

Reconhece que estas características são um patrimônio disponível e raramente manifestado. São qualidades explícitas da sua alma inquieta, cujo fervor alimenta um ímpeto constante de experimentar a vida e os seus mistérios, seja lá o que isto possa significar.

No meio destes devaneios é impossível não lhe vir à mente a figura irrequieta de Lia, a muito querida amiga de infância.

Ser naturalmente leve, livre e solta são coisas da Lia. Bem como traçar rotas curvas e elegantes em direção aos objetivos, ao contrário das retas rígidas impressas pelo traço irredutível das mãos categóricas de Vera.

Cada uma com seu estilo, diferentes em seus objetivos, mas parecidas na determinação para alcançar suas preciosas metas. Vera costumava repetir, na constante retrospectiva do tempo de criança, que entre elas existiam muitas semelhanças. No íntimo, não eram tão diferentes, mas complementares, equivalentes e intensas. As duas eram fiéis à natureza diversa que tinham, ao modo peculiar de reagirem aos acontecimentos. Ambas eram possuidoras de uma mesma energia e determinação para alcançar os sonhados projetos de felicidade.

Lia sempre foi irreverente. Abastecida de incrível vitalidade, parecia um vento soprado pelos espíritos, um azougue ocupado em satisfazer as urgências de sua curiosidade, compromissada tão somente com o ritmo fascinante da natureza ao redor. A pulsão de vida ziguezagueava ao seu redor, como se existisse tão somente para conduzi-la à plenitude de uma existência cheia de cores.

Vera, ao contrário, mantinha-se fiel à disciplina e ao seu plano de voo.

Encastelada nos balcões da filosofia, confortavelmente debruçada sobre os livros como se estes fossem um rio caudaloso onde poderia pescar os tesouros de sabedoria que tanto a seduziam. Jamais negou o prazer advindo da busca pelo conhecimento. Aprender coisas novas, mais que uma autoimposição, foi sempre um ato de conquista e realização pessoal. Quase um êxtase espiritual!

Ao longo da vida, cada uma dedicada às próprias aventuras, as amigas se distanciaram. Pouco se viam. Entretanto mantiveram o vínculo indestrutível da amizade verdadeira. A vida seguiu seu fluxo. Cada uma seguiu seu rumo. A imparável roda do destino continuou girando.

Entre os muitos prazeres da vida, Vera ainda acredita que a melhor viagem acontece através da ampla construção de conhecimento, obtido graças ao estudo, alimentado por curiosidade obstinada e por lampejos de uma discreta neurose manipuladora. Um tipo de TOC que te obriga a seguir por determinado caminho apenas porque aquela calçada é formada por ladrilhos quadrados.

Diferente de Lia, que sempre desconsiderou os palpiteiros do além, aquelas vozes que costumam brotar do nosso inconsciente com autonomia assustadora, Vera reconhece os perigos da presença sobrenatural da rainha má. Aquela portadora de uma cesta cheia de maçãs vermelhas, repressiva e chantagista, que insiste em malvadamente sussurrar nos ouvidos desavisados: ‘Se você quer ser amada, seja boazinha...’

No fundo, Vera sabe que tudo isso agora é bobagem. Ela é uma mulher adulta e não mais permite a aproximação intrusiva do lobo mau. Nem permite a interferência dos produtos inconscientes que costumavam aparecer nos sonhos, nas vigílias também, a fim de lhe subtrair a autoestima. Hoje entende que combater o adversário invisível, aquele que se diverte soprando tolices aos nossos ouvidos é, em primeiro lugar, um ato deliberado de constante resistência.

Finalmente Vera aprendeu a evitar a interferência destes pensamentos que ela chamava de espíritos sabotadores, quais fossem ou de onde viessem.

-Somente pensamentos luminosos devem ser recepcionados. Tudo o mais é apenas produto de uma mente palpiteira, momentos de compreensiva insegurança que todos nós experimentamos ocasionalmente. O que importa mesmo é o roteiro final, este sim, escrito para fazer nossas vidas valerem a pena!

O cérebro, o Eu no comando, sempre será o programador do imaturo eu pensante. Uma vez estabelecida a conexão estaremos aptos para viver uma vida harmoniosa e produtiva. Então tá.

Norteada por esta afirmação, ela brinca com as palavras na intenção de lustrar adequadamente suas convicções sem desconsiderar o sentido de utilidade sempre tão necessário em tudo o que faz.

No fundo de sua cabeça coroada de fios brancos, ela gostaria mesmo de conversar um pouco mais consigo mesma, algo longe de um momento terapêutico, mais como um solilóquio saudável, enriquecedor, falar de si para si mesma, livre, leve e solta, mas sem perder o controle, claro.

Começa a considerar alguns ajustes de percurso, novas atividades para a nova mulher que surge no horizonte. Sente-se meio piegas. Mas qual o problema de ser piegas?

Mantém os olhos fechados, respira fundo e se deixa conduzir por um fluxo despretensioso de pensamentos aleatórios:

-Ser coerente é um pressuposto do comportamento do adulto aclimatado, socialmente adaptado e que, em tese, deveria evitar comportamentos fora dos padrões estabelecidos (sabe-se lá por quem!).

Nestes tempos de pasteurização mental o mote é: todos na caixinha. E quando fora, marchando sempre todos na mesma direção.

Os agrupamentos sociais heterogêneos (hetero qualquer coisa) no geral resultam em tecidos fortes, capazes de multiplicar e fortalecer qualidades através das experiências entre os diferentes atores, cada qual com sua opinião e jeito ímpar de entender a vida. Este grupo tende a ser mais vibrante e saudável, generoso e empático, em comparação aos grupos homogêneos, que pensam em bloco. E são chatíssimos, anódinos, de uma invisibilidade lastimável, balizados por uma opinião única, sem contraditório, uma clássica unanimidade nelsonrodrigueana.

Neste grupo ninguém se destaca, não há representatividade, uma vez  que sem                     debates ou questionamentos, a chuva que lhes chove sobre as cabeças padronizadas é apenas uma garoa insossa, como um prato frio de macarrão ao molho branco.”

Vera abre os olhos em busca da luz da realidade, mas a imaginação se apossa deste momento e o caleidoscópio começa a girar. Mil pedrinhas coloridas derramam-se pelo chão do quarto entre os seus pés e ela ensaia uns rodopios...parece dançar. Está sendo piegas? Ora, o que importa se nunca aprendera a dançar? Também não sabia falar quando nasceu e hoje as palavras lhe saltam da boca como pipocas ...

Ergue os braços , estica a curva das costas, os pés firmemente postos no chão como inabaláveis colunas. Inspira o ar à volta, expira, respira, não pira... Permite-se uma pirueta desajeitada. O quadril amolece ao som imaginário de uma valsa dançada no primeiro baile da escola, na longínqua adolescência, guiada por um igualmente inexperiente colega de classe.

Ela se entrega a esta rara emoção. Não é hora de pensar. Basta-lhe sentir.

Revê nitidamente o prédio da escola ao lado da igreja com a torre, e o sino e as verdes amendoeiras alinhadas na rua Barão de Ubá, no outrora elegante bairro carioca da Tijuca.

Permite-se dançar de verdade. De novo, mais uma vez e outra, como Lia faria se estivesse aqui.

Na verdade, Vera está sentada em sua poltrona, no seu quarto, sonhando seu conto de fadas, em um espaço sem fronteiras, deliciosamente seu.

Parece-lhe que sonho e vigília são fragmentos de uma mesma experiência sensorial.

Ela sabe que não está dormindo, e se não dorme, não pode estar sonhando. Enxerga perfeitamente o cenário ao redor, embora não saiba como chegou até ali. As imagens são nítidas, vívidas e intensas. Há cor por todo lado, além de sons excelsos, frios arrepios, calor intenso, toques macios, roçar e sopros suaves. Há um eu presente, que se entrega, encanta e assente diante de tantas sensações represadas.

Esta sensação do presente com sabor de passado, este relógio parado, vestido de pura ironia, e o sino a badalar, acenam do alto da torre da igreja repetindo sem parar; nem presente nem passado, apenas a eternidade.

O tempo, o relógio e o sino, nada mais fazem, além de um chamamento para a preciosidade do agora, apontando que dezembro desmaia na imensidão do tempo que não passa e não se move, e portanto, não deveria nos assustar. Tudo está bem, tudo está certo no pulsar da inamovível galáxia que não para de bailar.

Alguns pensamentos emergem, elevam-se no ar como bolhas de sabão, delicadas, fugidias, lindamente transparentes em sua súbita aparição. O momento presente, ao que parece, jamais se oculta. É o que é para o bem e para o mal. Não é a repetição de um passado que gostaríamos de esquecer. É, entretanto, sempre a oportunidade de recomeçar. Nos mostra a possibilidade de fazer de novo e melhor. Abençoado presente!

A vida, por seu lado, nada nos pede nem exige. Ela simplesmente flui.

Basta que aceitemos a chegada piegas e tempestuosa do corcel dos velhos filmes românticos, a força do instinto que jamais pede para chegar, apenas invade a cena com seu ímpeto de absoluto poder.

Assim o dia de hoje costuma acontecer em nossa vida. Imprevisível e fatal no que diz respeito aos conteúdos, o vir a ser misterioso dos acontecimentos imprevisíveis.

O dia de hoje é inescapável oportunidade para revisão e ajustes. Precioso evento. Fugaz momento. Absolutamente surpreendente pelas infinitas possibilidades de seu roteiro. Embora seja igualmente prosaico, comum, rotineiro, contido em suas irredutíveis vinte e quatro horas. Incansável e infinito no seu mover. O dia de hoje é teimoso como as marolas da praia que se desdobram em ritmados vai-e-vem.

Necessário que seja assim para reafirmar os mistérios do universo.

 

***

 

Descalça, Vera caminha pelo quarto ainda tocada por intensas recordações. Volta-se para a espiritualidade e agradece a experiência. Não foi um delírio, nem uma cisão esquizo. Mas um conto de fadas sem a toca do Coelho. Uma revisita aos tempos de mocidade feita para conferir e resgatar experiências vividas, lembranças que ajudam a seguir em frente e, deste modo, nos protegem dos desafios e tropeços inevitáveis.

  No corpo e na alma trazemos herança dos pais, os marcadores de nosso caráter e personalidade. Isso nos fortalece. Somos afinal, quando muito, uma colcha de retalhos. Às vezes retalhos brancos e pretos. Uma obra bem feita ou mal acabada. Única, por isso, rara. Mas sempre seremos um evento breve de insignificância se considerarmos a esteira da eternidade. Este é um forte motivo para não nos levarmos muito a sério! Por esta razão não deveríamos fazer planos a longo prazo. Nem aplicações financeiras. Nem juras de amor eterno.


 

 

Diante deste lampejo de imediatismo, Vera arrisca considerar um futuro sem planejamento. Uma pluma soprada pelo vento. Uma folha carregada pelas águas mansas de um regato. Este pensamento dura uma ínfima fração de tempo. Suficiente para acordar seu espírito, mostrando que a adrenalina pode e deve ser eventualmente utilizada.

 Debruçada sobre histórias vividas e sonhos sonhados, ela admite que amou e foi amada. Que embora comedida, abriu  braços para o amor romântico e experimentou êxtases que deram à sua vida um maravilhoso significado. Teve divinos momentos de pluma soprada pelo vento.

 Experimentou sim as corredeiras do rio que ao mesmo tempo busca e evita o clímax da queda d’água. Envolvida por tais pensamentos, ela finalmente se permite um reencontro com Lia, consigo mesma, com seu lado feminino, rebelde e instintual.

Em resumo, admite até mesmo os planos mirabolantes através dos quais acreditava-se capaz de mudar o mundo para melhor, de corrigir as injustiças e estabelecer em algum lugar da terra o exótico e inatingível paraíso de Shangrilá.

O poder da juventude é intenso porque os jovens desconhecem a própria finitude e é com ingênua naturalidade que se apropriam da promessa feita às criancinhas: ‘A elas pertence o reino dos céus’.

Este vigor ainda pulsa no espírito de Vera, que dele se apropria mais uma vez, admitindo finalmente seu merecimento de uma vida mais leve, livre e solta, sem culpas imaginárias e cobranças desnecessárias. A irreverência juvenil ressurge, misturada ao seu esquecido senso de humor que nos últimos tempos tem se revelado nos encontros com amigos, onde não existem críticas inoportunas nem cobranças descabidas, apenas manifestações de afeto entre pessoas que se respeitam e admiram.

Ela finalmente admite sentir saudades de Lia. Saudades de si mesma, da sua juventude. Do seu lado divertido, pulsante e instintivo.

Este é o momento longamente esperado de suave enlevo, de plenitude e feliz reencontro consigo mesma. Sente-se livre para perdoar-se por falhas e enganos cometidos no passado. Tudo o que passou foi vivido intensamente com base nas verdades de que dispunha naqueles momentos. Tinha compromisso com suas crenças. Balizada por tais convicções acertou muitas vezes e errou outras tantas. Então, valeu a pena.

Hoje percebe que erros e acertos são comuns a todos os mortais que, diante dos inevitáveis desafios da vida, tentam encontrar solução para seus problemas e corrigir adequadamente as rotas estabelecidas.

Compromissados com seu caráter e senso de honra querem sim fazer a coisa certa, mesmo diante da confortável possibilidade da omissão, da inércia ou covardia; ou seja, não tentar e nada fazer. Pessoas com esta capacidade de discernimento e senso moral instintivo erram menos e têm a capacidade de fazer bons ajustes em seus projetos de vida. Além de serem especialmente abençoadas.

-O erro deve ser sempre uma escada rumo ao aperfeiçoamento e os acertos devem ser considerados uma tomada de fôlego entre os degraus.

Encanta-se com a paz proporcionada pelos novos pensamentos. Abre um sorriso de aceitação dos próprios limites, assim como do reconhecimento das virtudes reprimidas, fatiadas para serem atribuídas a Lia, seu reflexo no espelho, seu lado descontraído, descompromissado, sem as regras que a impediram por tanto tempo de desfrutar plenamente de uma vida significativa.

Agora consegue perceber a fluidez dos sentimentos que a envolvem. A suavidade de enxergar-se como obra divina e humana ao mesmo tempo. Já é possível olhar-se no espelho sem o viés crítico de alguém que, do alto da sua arrogância, pretendia consertar o mundo mas a ansiedade não lhe permitia arrumar o próprio quarto!

Não precisa mais ser invisível. Não precisa e não quer. Entende que fórmulas para o bem viver não existem porque todos temos uma alma cheia de tempestades que nos impedem de reconhecer quem somos em essência. Somos apenas terra molhada, soprada e talhada para recepcionar as sementes da vida.

O rio pode ser voluntarioso, impetuoso, mas as margens são conciliadoras, orientam o fluxo, fazem a contenção do eu. O segredo talvez esteja na aceitação do óbvio, das forças complementares, e oferecer o que de melhor existe em nós. Um olhar de sincero interesse por si mesmo e pelo outro.

Resoluta, ela abre as janelas da casa para permitir a entrada da luz do sol.

Nada mais simples do que um raio de luz para clarear e aquecer a vida de uma mulher com muitas ideias e admirável senso de humor.

Uma nova vida se descortina com naturalidade e alegria. Algumas pessoas conversam com seus tigres. Outras interpelam os anjos. Todos buscam um interlocutor porque o diálogo é indispensável. Vita hic sum¹.

 

1.     Vida, estou aqui.


Convido o leitor fazer sua apreciação do texto. Em seguida vou registrar a análise do mesmo.

Marina Régia

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dificuldades para administrar seus relacionamentos pessoais?

Correndo atrás do prejuízo