AS AMIGAS E O ESPELHO
O mês de dezembro novamente aponta na curva da estrada enquanto Vera se espreguiça em movimento habitual, voltada para o novo dia de trabalho, o que lhe dá prazer inegável, além da certeza de seu pertencimento à grande massa produtiva da sociedade. Gesto comum este, necessário para impulsionar o corpo e despertar a mente. Em seguida vem a primeira reflexão de todos os dias, semanas e meses enfileirados de modo simbólico ao longo de cada ano, sendo dezembro a data limite para as considerações de quem vive guiada pelas regras e pelas verdades irretorquíveis normalmente impostas às pessoas comuns como sendo esta a única forma de se viver uma vida decente. Por força do hábito e cacoete da disciplina, ela suspira e questiona a si mesma: -Qual o sentido de tudo isso? Apenas cumprir obrigações vem se tornando um tédio. Buscar justificativas para seu próprio desânimo parece inadequado. Ainda que a maioria das pessoas recorra a esse recurso para dissipar mágoas supostamente causadas...